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Cena Extra - A Família Destinada Para o Mafioso

  • 3 de jul. de 2025
  • 4 min de leitura

Sombra na Areia

PONTO DE VISTA DESCONHECIDO

O motor antigo roncava como um aviso. O carro preto cortava a estrada de terra com uma lentidão quase cerimonial, levantando poeira dourada sob o sol baixo da Sicília. Não havia pressa. Quem estava ao volante sabia que não precisava correr. Aquilo não era uma chegada.

Era uma retomada.

A praia era esquecida, encoberta por penhascos, onde o mar batia forte e a civilização se rendia ao silêncio. A casa, envelhecida pela maresia e pelo tempo, parecia ruir por fora — mas por dentro, o concreto resistia. Um lugar onde ninguém passava por acaso.

O homem saiu do carro, vestindo linho escuro e óculos antigos. O cabelo grisalho estava penteado para trás com a precisão. Caminhou sem hesitar pela areia quente, as solas dos sapatos enterrando lembranças. A porta se abriu antes que ele tocasse. Lá dentro, o ar era denso. Quatro homens armados estavam espalhados em pontos estratégicos, como peças em um tabuleiro já jogado. Nenhum deles falou. Mas todos olharam para ele como se estivessem diante de um fantasma.

Ele sorriu.

— Estão me esperando? — disse com um sotaque espesso, de quem nunca esqueceu de onde veio.

Um dos homens assentiu, oferecendo-lhe uma bebida. Ele recusou com um gesto.

A brisa invadiu o ambiente pela janela entreaberta, arrastando o som distante das ondas. Ele se virou para observar o mar.

— Esta guerra não acabou. Ela apenas mudou de campo.


O PREÇO DO SANGUE

Mariano

A lâmina ardeu mais do que eu esperava.

Não era como levar um tiro, como o impacto seco que explode e te entorpece. Aquilo cortava devagar. Um calor sujo se espalhava pelo abdômen, escorria pelas costelas como óleo fervente, e eu só conseguia pensar que aquele maldito velho ainda sabia onde ferir um homem.

Salvatore Carbone. O desgraçado moveu-se como se a idade não pesasse. A faca entrou e, no instante seguinte, o sangue já escorria pelos meus dedos. Eu não gritei. Não por bravura — mas por orgulho. O que me saiu foi um som bruto, mais próximo de ódio do que dor.

Assis me chamou. A voz dele veio como um estrondo abafado, mas eu já sabia o que estava fazendo. Encostei na parede para não cair. O chão girava. O gosto metálico na garganta indicava que, se fosse mais fundo, eu não estaria ali. Mas Salvatore errou por pouco. Talvez de propósito. Talvez só para marcar.

— Vai… pega o maldito Cross — murmurei, pressionando o corte como quem segura a própria alma com a palma da mão.

Assis hesitou, mas Siena apareceu no mesmo instante. Foi o que salvou minha vida. Ou talvez tenha sido azar porque sobreviver significava lembrar.

Dias depois, ainda na Calábria, a dor persistia. Já não era física. Era pessoal. Humilhante.

Salvatore me atravessou como se eu fosse um capanga qualquer. Ali, no quarto de pedra e madeira da casa de campo dos Mansueto, eu redesenhava meu nome. Mariano já não era apenas o engraçadinho da família, o sedutor risonho.

Eu era o homem que fora esfaqueado por um traidor e que não deixaria isso passar.

Salvatore pensava que escapar era vencer, que fugir pela escada dos fundos era apagar tudo o que veio antes. Mas ele esqueceu quem ensinou a mim e aos meus irmãos a nunca deixar uma dívida em aberto. Meu corpo estava em recuperação. Mas a minha memória — essa estava afiada como a lâmina que quase me matou.

Na próxima vez, sou eu quem enfiaria a faca.

E juro por tudo o que carrego no sangue: ele vai sentir cada centímetro.


A ÚLTIMA PALAVRA

Cross

O vidro da janela refletia meu rosto — mais magro, mais velho, menos homem e mais animal acuado. A guerra que comecei havia devorado todos ao redor. Menos um e era exatamente dele que eu não conseguia parar de pensar.

Assis Mansueto.

Eu tentei quebrar aquele homem. Testei os limites da paciência, da honra, da sanidade dele. Joguei com a mulher. Com a filha. Com o sangue. Mas no fim… fui eu quem se perdeu. Ele era o tipo de inimigo que não explodia — ele corroía por dentro de forma lenta, imperceptível, até que tudo que restava em você era medo. Mas ele não era o que mais me assustava.

Salvatore Carbone.

Esse, sim, era a morte disfarçada de gente. Eu o vi matar um homem com um arame de violão, sorrindo. Vi o que ele fazia com quem debochava. Com quem hesitava. Ele não gritava. Ele olhava e bastava. Assis podia me odiar, podia vir para me destruir. Mas Salvatore… Salvatore vinha pelo que você achava que já estava esquecido. Ele cavava fundo. Onde a culpa mora e a vergonha finge dormir. E ali, ele fincava os dentes.

Eu o deixei entrar.

Fui eu quem abriu as portas. Dei a ele nomes, rotas, armas, poder. Achei que conseguiria controlar. Manipular. Mas ninguém manipula um lobo faminto.

Agora, a cidade ardia e eu já não sabia quem estava ganhando.

Assis achava que estava vencendo, que tinha salvado a garota, a filha, a honra da família. Mas ele não viu o que eu vi nos olhos do velho Carbone. Salvatore não quer território. Ele quer o legado que foi negado quando ainda era um Bracci. Vai queimar o mundo para construir o dele nas cinzas. A lâmina que ele enfiou no Mariano foi só um recado. A guerra estava longe de acabar e o que vem agora… vai fazer tudo parecer brincadeira de criança porque ele não estava sozinho.

Encostei a cabeça no vidro.

Talvez eu merecesse o fim que vinha.

Talvez não.

Mas se há uma coisa que o inferno me ensinou… é que nem sempre o diabo é quem puxa o gatilho. Às vezes, ele apenas espera — e assiste.

E Assis era um bom espectador.

 
 
 

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12 comentários


sspannunziato
17 de jul. de 2025

Que venha o Mariano e todos os próximos capítulos ❤️

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elisangela_miminho
10 de jul. de 2025

Super ansiosa pelo próximo lançamento.Parabens Mari.

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gisele.motta9
10 de jul. de 2025

Ansiosa pelo que vem pela frente.

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freire.chisleyne
09 de jul. de 2025

Humm, gosto do quem por aí! Ja ansiosa, pois eu maratono todas as suas séries da Máfia e amo cada livro e vivo junto com.os personagens.

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taylanesilvah27
09 de jul. de 2025

Não vejo a hora do Mariano chegar... no aguardo desse lançamento. :)

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